Algumas cicatrizes não se apagam — e basta uma faísca para reacender a desconfiança. O premiado filme galego “Fire Will Come” (O Que Arde / Lo que arde), de Oliver Laxe, não é apenas um drama sobre um incêndio; é um poema visual sobre estigma, silêncio e a relação indissolúvel entre o ser humano e a natureza selvagem. Após cumprir pena por incendiar a floresta, Amador (Amador Arias) retorna à aldeia remota para viver com a mãe, Benedicta (Benedicta Sánchez), numa rotina marcada pelo ritmo lento e pela solidão da vida rural. Quando um novo fogo consome a Galícia, a desconfiança coletiva e o julgamento social caem instantaneamente sobre ele, transformando o peso do passado na sua nova sentença.
A Paisagem e a Fragilidade da Vida Terrestre
Com uma fotografia belíssima e naturalista, o filme captura a Galícia em sua beleza rústica, mas também em sua extrema vulnerabilidade. A presença do fogo é uma força cíclica e devastadora, que serve como lembrete brutal do poder da natureza e da fragilidade dos ecossistemas. O filme convida a uma reflexão profunda sobre a destruição das florestas e o impacto ambiental, sem recorrer a discursos didáticos.
A inevitabilidade do incêndio, expressa no próprio título, ressalta a importância de se proteger a vida terrestre e gerir as paisagens rurais de forma a mitigar catástrofes. O drama mostra como a natureza imponente e, ao mesmo tempo, frágil, está no centro da vida das comunidades rurais e como a tragédia ambiental desestabiliza a existência e o futuro desses lugares, questionando a capacidade de construir ambientes seguros e sustentáveis nessas regiões.
O Fogo da Exclusão Social
O foco principal do filme, no entanto, é o peso da reinserção social e o estigma. Amador é um ex-presidiário que busca a vida simples e isolada, mas seu passado o acompanha como uma sombra que o silêncio da comunidade apenas torna mais pesada. A aldeia se torna um microcosmo de como a sociedade lida com “o outro” marcado pela culpa, mesmo após o cumprimento da pena.
A narrativa toca diretamente na questão da redução das desigualdades, ao expor a marginalização sofrida por quem carrega a marca do erro. O isolamento psicológico de Amador e a relação silenciosa, mas carregada de afeto, com a mãe idosa são os pilares emocionais do filme. O olhar de julgamento da comunidade e a dificuldade de encontrar paz e bem-estar após a exclusão social são evidentes, mostrando que as chamas da desconfiança queimam de forma tão destrutiva quanto o fogo na floresta.
Um Retrato Sensorial de Resistência Silenciosa
“Fire Will Come” utiliza a estética contemplativa e a interpretação autêntica de atores não profissionais para criar um retrato poético e sensorial da realidade rural. A narrativa é lenta e poética, permitindo que o espectador sinta o ritmo da vida rural, o cheiro da floresta e o calor do perigo iminente.
O filme é uma homenagem à resiliência silenciosa das comunidades da Galícia, que convivem com a ameaça cíclica da destruição, mas que se apoiam no laço familiar e na tradição. Vencedor do Prêmio do Júri em Cannes, o longa-metragem se destaca por sua capacidade de transformar um evento de catástrofe em uma profunda meditação sobre a condição humana, onde a luta pela sobrevivência física é inseparável da luta por aceitação e dignidade.
