Lançado em 2019, o documentário Democracia em Vertigem, dirigido por Petra Costa, não se limita a narrar os eventos que abalaram a democracia brasileira na última década. A obra é, sobretudo, uma confissão audiovisual: uma narrativa que entrelaça as memórias da diretora com as cicatrizes políticas de um país em constante ebulição.
Ao lançar mão de registros pessoais, imagens de arquivo e uma narração sensível e introspectiva, Petra constrói um mosaico onde sua história familiar — marcada tanto pela militância de esquerda quanto por laços com o setor empresarial — se funde à trajetória do Brasil, da redemocratização à ascensão de forças políticas que colocaram à prova os próprios pilares democráticos.
Crise, ruptura e a fragilidade das instituições
O fio condutor do documentário é a análise da crise institucional que culminou no impeachment de Dilma Rousseff. Sem adotar uma linguagem panfletária, Petra Costa propõe uma reflexão sobre como decisões políticas, jurídicas e midiáticas moldaram um cenário de desconfiança generalizada nas instituições.
O que começa como um retrato da ascensão do Partido dos Trabalhadores, com Lula e Dilma à frente, logo se transforma em uma análise contundente dos mecanismos que enfraqueceram as estruturas democráticas. As imagens de julgamentos, protestos e articulações nos bastidores revelam, com desconfortante clareza, a complexidade de um país dividido e vulnerável a retrocessos.
A polarização como espelho da sociedade
Ao longo dos 121 minutos de duração, Democracia em Vertigem evidencia como a polarização política extrapolou os palanques e invadiu lares, amizades e relações familiares. O documentário lança luz sobre um país que se viu, de repente, dividido por muros invisíveis, erguidos por narrativas opostas e muitas vezes irreconciliáveis.
Essa divisão, que reverberou nas ruas e nas redes, não é apresentada como um fenômeno isolado, mas como sintoma de problemas estruturais — desigualdades históricas, fragilidade educacional e ausência de diálogo efetivo entre diferentes grupos sociais.
Quando o pessoal é também político
O grande trunfo do filme está em sua abordagem profundamente pessoal. Ao inserir sua voz e sua trajetória na linha do tempo dos acontecimentos, Petra Costa subverte a lógica tradicional dos documentários políticos, geralmente mais distanciados e objetivos. Aqui, o relato é afetivo, sensível e, justamente por isso, contundente.
Essa escolha estética e narrativa não enfraquece o rigor da análise, mas amplia sua potência. Ao revelar como sua própria família se viu dividida entre diferentes projetos de país, a cineasta convida o público a refletir sobre como os processos democráticos — e suas rupturas — atravessam não apenas os palácios de Brasília, mas também as mesas de jantar em todo o território nacional.
Da prisão de Lula à ascensão de Bolsonaro: um país em vertigem
O clímax do documentário acompanha os momentos mais delicados da recente história política brasileira: a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva e, na sequência, a eleição de Jair Bolsonaro. Petra registra não apenas os fatos, mas o ambiente de tensão, medo e incerteza que se instalou no país.
Sem recorrer a simplificações, o filme sugere que a erosão da confiança nas instituições, somada ao discurso de intolerância e antipolítica, abriu espaço para que movimentos extremistas ganhassem força. É um alerta — não apenas para o Brasil, mas para qualquer nação que subestime a importância de preservar o pacto democrático.
Documentar para não esquecer
Mais do que um registro dos fatos, Democracia em Vertigem é um exercício de memória. Ao narrar sua própria versão da história, Petra Costa cumpre um papel fundamental: o de transformar a dor, a perplexidade e o desconcerto em reflexão coletiva.
Num momento em que as democracias ao redor do mundo enfrentam desafios — seja pela desinformação, pelo enfraquecimento das instituições ou pela ascensão de discursos autoritários —, a obra assume caráter de resistência simbólica. Documentar é, também, um ato político.
Por que (ainda) importa assistir?
Seja pelo valor histórico, pela beleza estética ou pela urgência dos temas que aborda, Democracia em Vertigem segue sendo uma obra indispensável. Ela nos convida a refletir não apenas sobre o que aconteceu, mas sobre o que ainda pode acontecer, caso a vigilância cidadã, o fortalecimento das instituições e o compromisso com o diálogo sejam negligenciados.
O documentário também destaca a importância de narrativas produzidas por mulheres no campo do audiovisual político, reforçando como diferentes olhares enriquecem o debate público e ampliam as possibilidades de compreensão da realidade.
