Ali & Ava, filme britânico de 2021 escrito e dirigido por Clio Barnard, acompanha dois adultos que encontram uma possibilidade de relacionamento em meio a conflitos pessoais. Interpretados por Adeel Akhtar e Claire Rushbrook, os protagonistas vivem em Bradford, na Inglaterra, onde música, trabalho e família atravessam sua aproximação. O drama examina como construir intimidade sem apagar experiências anteriores.
Uma aproximação dentro da vida cotidiana
Ali administra imóveis da família e mantém contato próximo com seus inquilinos. Ava trabalha como assistente em uma escola e divide sua rotina entre filhos, netos e responsabilidades profissionais. O encontro acontece por intermédio de uma criança ligada aos dois, inserindo o início do romance em atividades que já fazem parte de suas vidas.
Essa construção dá ao relacionamento obstáculos concretos. Ali ainda compartilha a casa com Runa, interpretada por Ellora Torchia, apesar da separação, enquanto Ava carrega lembranças de um casamento marcado pela violência. A disponibilidade para conhecer alguém convive, portanto, com situações que permanecem sem resolução.
A música como forma de comunicação
Os gostos musicais estabelecem diferenças e oportunidades de aproximação. Ava prefere folk e country; Ali circula por gêneros como música eletrônica, punk e ska. Na entrevista ao British Film Institute, Akhtar situa essa troca de repertórios entre os elementos que ajudam a construir o vínculo dos personagens.
As canções permitem compartilhar algo pessoal antes que ambos consigam explicar suas experiências. Escutar o repertório do outro pode ser entendido como um exercício de curiosidade: a afinidade não depende de preferências idênticas. A música também oferece momentos de prazer que coexistem com o sofrimento, evitando que os personagens sejam definidos apenas pelas dificuldades que enfrentam.
Atuações e direção voltadas à proximidade
Akhtar e Rushbrook precisam articular sociabilidade e solidão sem tornar uma incompatível com a outra. Na leitura de Glenn Kenny, do site RogerEbert.com, a atenção dedicada à presença dos protagonistas é central para a proposta do filme. O interesse se concentra na convivência e na percepção gradual do que cada um procura nessa relação.
A direção aproxima essa observação dos espaços ocupados pelo casal. Sophie Monks Kaufman, da Sight and Sound, destaca o uso de planos muito próximos dos rostos e a alternância entre o movimento cotidiano e momentos de quietude. Segundo essa leitura, a fotografia de Ole Bratt Birkeland acompanha as mudanças de disposição dos personagens e participa da construção da intimidade.
Ritmo e progressão dos conflitos
O desenvolvimento do romance privilegia conversas, visitas e atividades compartilhadas. Kenny observa que Barnard dedica mais atenção à experiência de estar com essas pessoas do que ao avanço constante da trama, reconhecendo que essa escolha pode parecer pouco movimentada para parte do público. O ritmo depende da importância atribuída aos pequenos acontecimentos.
Essa opção estabelece um desafio para o roteiro: sustentar o interesse sem transformar cada encontro em uma revelação ou reviravolta. As tensões familiares introduzem mudanças nessa convivência, mas o núcleo dramático continua sendo a abertura gradual entre Ali e Ava. O efeito do filme está ligado à capacidade desses momentos cotidianos de tornar perceptível uma transformação afetiva.
Família, preconceito e autonomia
Callum, filho de Ava interpretado por Shaun Thomas, reage à presença de Ali de forma hostil. Sua resistência envolve preconceito e a memória idealizada do pai, colocando a protagonista diante da necessidade de afirmar uma história própria. O conflito permite observar como expectativas familiares podem restringir escolhas afetivas mesmo na vida adulta.
Bradford reúne essas relações em um mesmo espaço social, com diferenças culturais e experiências de pertencimento. A relevância do romance está em reconhecer que os protagonistas continuam desejando companhia, descoberta e intimidade enquanto mantêm responsabilidades com outras pessoas. Nessa leitura, construir um novo vínculo exige negociar espaço dentro da vida existente, sem reduzir a identidade de nenhum dos dois à origem, à idade ou ao passado.
