A série sueca Os Assassinatos de Åre (Åremorden), lançada pela Netflix em 6 de fevereiro de 2025, acompanha Hanna Ahlander, uma policial afastada de Estocolmo que viaja para Åre após enfrentar problemas profissionais e pessoais. Na cidade turística cercada por neve e montanhas, ela se envolve na investigação do desaparecimento de Amanda, uma adolescente de 17 anos. Ao lado do policial Daniel Lindskog, Hanna também investiga posteriormente a morte de Johan Andersson, em uma temporada de cinco episódios baseada nos romances Hidden in Snow e Hidden in Shadows, de Viveca Sten.
Uma investigação dividida em dois casos
A primeira temporada é estruturada em dois arcos narrativos. Os três primeiros episódios adaptam Hidden in Snow e acompanham o desaparecimento de Amanda após uma festa durante o período de Santa Lúcia. Os dois episódios finais adaptam Hidden in Shadows e apresentam a investigação sobre a morte de Johan Andersson. A divisão permite que a série apresente duas histórias independentes, mas conectadas pela presença de segredos mantidos dentro da comunidade.
Hanna e Daniel começam a trabalhar juntos em circunstâncias pouco favoráveis. Ela chega a Åre sem fazer parte da equipe local e ainda enfrenta uma investigação relacionada à sua atuação profissional em Estocolmo. Daniel, por sua vez, conhece as limitações da delegacia e inicialmente desconfia da participação da colega. A relação entre os dois evolui conforme suas competências se complementam, com a intuição e a persistência de Hanna encontrando a experiência operacional de Daniel.
O primeiro caso também amplia a investigação para além do desaparecimento de Amanda. A adolescente havia descoberto que Zuhra, uma trabalhadora em situação de vulnerabilidade, estava sendo explorada. A retenção de documentos e a dependência econômica fazem parte do esquema associado a Bosse. Amanda decide confrontar a situação e acaba sendo morta por ele. A resolução desloca o foco de um simples desaparecimento para uma discussão sobre exploração, vulnerabilidade e responsabilidade diante de situações de abuso.
Hanna Ahlander e Daniel Lindskog
Interpretada por Carla Sehn, Hanna é construída a partir da tensão entre sua situação pessoal e sua capacidade investigativa. O afastamento da polícia, o fim do relacionamento e a mudança para Åre sugerem inicialmente uma tentativa de interromper sua trajetória profissional. O desaparecimento de Amanda, entretanto, evidencia que sua maneira de observar o mundo continua ligada ao trabalho policial.
A principal característica de Hanna é a dificuldade de ignorar inconsistências. Ela questiona versões apresentadas como definitivas e retorna a detalhes que parecem pouco relevantes. Essa persistência contribui para a solução dos casos, mas também revela uma fragilidade: a mesma disposição para investigar pode fazê-la ultrapassar limites e assumir riscos. A série, portanto, não apresenta sua protagonista como uma investigadora infalível.
Daniel, interpretado por Kardo Razzazi, funciona como contraponto. Enquanto Hanna chega de fora e questiona informações estabelecidas, Daniel possui conhecimento da cidade e dos procedimentos da polícia local. Paralelamente, enfrenta o desafio de conciliar a profissão com a vida familiar. Sua trajetória estabelece uma discussão sobre os limites da disponibilidade profissional e mostra que responsabilidade no trabalho não significa necessariamente estar acessível em todos os momentos.
Aparência, violência e segredos familiares
O segundo arco modifica o tipo de mistério apresentado. Johan é encontrado morto próximo aos trilhos ferroviários, e as circunstâncias apontam inicialmente para Ole, marido de Rebecka. O personagem exerce uma posição de autoridade religiosa e mantém uma imagem pública incompatível com o comportamento que apresenta dentro de casa. Rebecka vive uma relação marcada por controle e violência, enquanto mantém uma relação com Johan e está grávida dele.
A investigação, entretanto, precisa separar os crimes. Ole pratica violência contra Rebecka e chega a sequestrá-la, mas não é responsável pela morte de Johan. A descoberta do álibi obriga Hanna e Daniel a abandonar uma hipótese que parecia consistente. A investigação chega então à família de Johan: Leo, filho de Marion e enteado de Johan, o atinge com uma pá após ouvir uma discussão relacionada à separação familiar. Marion posteriormente decide encobrir a morte para proteger o filho, contando com a participação de Jens.
A sequência introduz uma questão central da temporada: compreender a motivação de uma pessoa não significa justificar suas decisões. Marion age para proteger Leo, mas o encobrimento produz novas consequências. O adolescente passa a carregar culpa e medo até tentar se matar nos mesmos trilhos onde o corpo de Johan havia sido colocado. Hanna consegue impedir a tentativa, encerrando o arco com uma consequência que ultrapassa a solução policial do homicídio.
A neve como elemento narrativo
A ambientação de Åre desempenha papel importante na construção do suspense. A cidade é apresentada como um destino turístico associado às montanhas, ao esqui, às casas de férias e à neve. Essa aparência de tranquilidade contrasta com os conflitos descobertos pelas investigações. A série utiliza a paisagem para estabelecer uma oposição entre aquilo que é visível e aquilo que permanece oculto.
A neve também funciona como elemento recorrente dentro da narrativa. Ela cobre superfícies, modifica paisagens e pode esconder rastros, estabelecendo uma relação visual com os segredos mantidos pelos personagens. O mesmo princípio aparece nas casas: espaços que deveriam representar segurança podem esconder exploração, violência ou conflitos familiares. A ambientação, portanto, não serve apenas como cenário, mas reforça a estrutura temática da série.
Outros elementos cumprem função semelhante. As cortinas vermelhas associadas ao corpo de Johan tornam-se uma pista para a investigação, enquanto o álibi baseado em um show é desmontado por uma informação aparentemente pequena sobre a apresentação de abertura. A série trabalha, assim, com a ideia de que versões elaboradas podem ser desmentidas por detalhes concretos, reforçando a necessidade de confrontar hipóteses com evidências.
Relevância social e os limites da investigação
Os dois casos permitem que Os Assassinatos de Åre trate de problemas que ultrapassam os crimes investigados. A história de Zuhra envolve exploração de trabalhadores vulneráveis, retenção de documentos e desigualdade de poder. Já a trajetória de Rebecka aborda controle dentro de uma relação abusiva e as dificuldades associadas à tentativa de recuperar autonomia. Em ambos os casos, pessoas em posições de vulnerabilidade dependem da possibilidade de serem ouvidas e protegidas.
A série também estabelece uma distinção entre intuição e prova. Hanna frequentemente identifica situações que parecem não fazer sentido, mas suas suspeitas precisam ser verificadas. O caso de Ole demonstra essa necessidade: embora existam motivos para suspeitar dele e seu comportamento seja criminoso em relação a Rebecka, os elementos da investigação não sustentam a acusação de assassinato. A narrativa evita, nesse ponto, transformar comportamento condenável em prova automática de outro crime.
