Hector Babenco conviveu durante décadas com a possibilidade da morte e manteve no cinema uma das principais formas de compreender a própria existência. Dirigido por Bárbara Paz, Babenco — Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou acompanha o cineasta em seus últimos anos, reunindo memórias, registros íntimos, reflexões e imagens construídas a partir de sua relação com a câmera. Estreado em 2019 no Festival de Veneza, onde recebeu o prêmio de Melhor Documentário da seção Venice Classics, o longa também foi escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar de Melhor Filme Internacional.
Um cineasta diante da própria câmera
A principal particularidade do documentário está na inversão de posições. Hector Babenco passou grande parte da carreira atrás da câmera, dirigindo histórias sobre personagens frequentemente colocados à margem da sociedade. No filme de Bárbara Paz, entretanto, ele ocupa o outro lado do enquadramento. Seu corpo, suas lembranças, suas limitações e sua relação com a morte passam a constituir a matéria principal da obra.
Essa mudança não elimina a presença do cineasta. Babenco continua comentando, questionando e participando do processo de construção das imagens. A relação entre diretor e personagem permanece, portanto, instável: Bárbara conduz o documentário, mas Hector continua tentando interferir na maneira como é filmado. A câmera registra não apenas seus últimos anos, mas também a continuidade de uma identidade construída em torno do cinema.
O resultado é uma biografia que não se organiza como uma cronologia convencional. Em vez de simplesmente apresentar nascimento, carreira, reconhecimento e morte, o filme aproxima diferentes tempos e experiências. A memória pessoal, a trajetória profissional, a doença e a intimidade se sobrepõem para construir um retrato mais concentrado no homem que existia por trás da filmografia.
Bárbara Paz entre o amor, o cuidado e o cinema
A posição de Bárbara Paz acrescenta uma dimensão específica ao documentário. Ela não é apenas a diretora responsável por observar Hector, mas também sua companheira. Essa proximidade coloca a cineasta diante de uma questão permanente: como registrar a fragilidade de alguém que ama sem reduzir essa pessoa à condição de paciente ou personagem?
A câmera passa a exercer funções simultâneas. É instrumento de criação cinematográfica, mecanismo de registro e forma de preservação da memória. Bárbara não pode impedir a morte de Hector, mas pode registrar aquilo que antecede sua ausência. Nesse sentido, a realização do documentário transforma a própria relação afetiva entre os dois em parte da estrutura narrativa.
A escolha também impede que Babenco seja apresentado apenas como um nome consagrado do cinema. Prêmios, festivais e obras importantes continuam presentes, mas dividem espaço com situações cotidianas, conversas, momentos de humor e manifestações de fragilidade. O diretor reconhecido internacionalmente e o homem que envelhece passam a existir dentro do mesmo enquadramento.
Doença, corpo e criação artística
A doença é uma presença constante, mas o documentário evita transformá-la na definição completa de Hector Babenco. O histórico de câncer acompanha sua trajetória desde os 38 anos e influencia diretamente sua relação com o tempo, mas a narrativa também insiste na permanência de outras dimensões de sua identidade: cineasta, companheiro, pai, amigo e criador.
Essa distinção é importante para a abordagem do filme. O corpo impõe limites progressivos, enquanto a atividade intelectual permanece inquieta. Babenco continua interessado em imagens, histórias e possibilidades de criação mesmo diante da deterioração física. Para ele, o cinema aparece menos como uma simples profissão e mais como uma maneira de organizar a própria experiência.
O documentário também estabelece uma relação direta com Meu Amigo Hindu, último longa de ficção dirigido por Babenco. Naquele filme, sua experiência com a doença e a mortalidade foi transformada em ficção. Aqui, a própria vida do cineasta se torna matéria documental. A distância entre realidade e representação diminui, reforçando uma característica recorrente de sua obra: a aproximação entre experiência pessoal e criação cinematográfica.
Memória, legado e a passagem do tempo
O uso predominante do preto e branco contribui para aproximar diferentes momentos da trajetória de Babenco. As imagens contemporâneas, os registros de arquivo e as lembranças passam a compartilhar uma mesma atmosfera visual, dificultando uma separação rígida entre presente e passado. A escolha também reforça a ideia de que toda imagem registrada já carrega alguma relação com a memória.
Essa perspectiva se relaciona diretamente ao funcionamento do cinema como arquivo. Uma pessoa pode desaparecer fisicamente, mas uma obra continua disponível para novas gerações. Filmes realizados décadas antes podem ser revisitados por espectadores que jamais conheceram seu autor. O documentário transforma essa possibilidade em parte de seu próprio argumento: registrar o presente de Babenco significa permitir que sua presença continue acessível depois de sua morte.
O legado, portanto, não é apresentado apenas como uma lista de filmes ou prêmios. Ele também envolve conhecimento transmitido, profissionais influenciados, personagens que ganharam visibilidade e debates que continuam a partir de sua obra. A preservação da memória cinematográfica aparece como uma forma de continuidade cultural, especialmente quando uma trajetória artística poderia ser reduzida, com o passar do tempo, a algumas informações biográficas.
O coração para, mas a obra continua
A força do título está justamente na oposição entre o limite biológico e a permanência simbólica. O coração representa aquilo que inevitavelmente chega ao fim: o funcionamento do corpo, a presença física e a vida individual. O cinema, por outro lado, introduz uma segunda temporalidade, na qual uma imagem pode continuar sendo exibida muito depois de seu autor ter desaparecido.
O documentário também reconhece que essa permanência não equivale à imortalidade. Um filme não mantém uma pessoa biologicamente viva. Ele preserva uma voz, um rosto, um gesto, uma ideia e uma determinada maneira de olhar para o mundo. Cada nova exibição reabre esse registro e permite que alguém que nunca conheceu Babenco entre em contato com sua obra.
É nesse ponto que Babenco — Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou ultrapassa o retrato biográfico de um cineasta. A obra transforma uma experiência particular em uma reflexão sobre criação, memória, cuidado e finitude. Hector Babenco morreu, mas seus filmes continuam disponíveis para serem vistos, discutidos e reinterpretados. O coração parou; a conversa estabelecida por sua obra permanece.
