O documentário One of Us acompanha de maneira íntima a trajetória de três ex-membros da comunidade hassídica de Brooklyn que decidem romper com as tradições ultraortodoxas para buscar uma vida autêntica fora dos limites de sua religião. A decisão de deixar o grupo não traz apenas alívio, mas também um alto preço emocional e social: isolamento familiar, ameaças constantes e o desafio de se reinventar em um mundo desconhecido. A produção revela os bastidores de um universo fechado, onde sair significa renunciar à identidade anterior e reconstruir-se do zero.
Trauma, identidade e recomeço
Ari Hershkowitz carrega o peso de ter sido vítima de abuso sexual durante a infância e luta contra a dependência química que marcou sua adolescência. Luzer Twersky deixou para trás a fé rigorosa e investe na tentativa de se firmar como ator no mundo secular. Etty Ausch enfrenta um processo judicial para manter a guarda de seus filhos após abandonar o casamento forçado e a comunidade. Os três protagonistas compartilham sentimentos de medo, culpa e solidão, mas também esperança e desejo de pertencimento em novos contextos sociais.
Estilo narrativo e impacto emocional
As diretoras Heidi Ewing e Rachel Grady adotam uma câmera observacional, evitando intervenções diretas ou narradores. O espectador é colocado como testemunha silenciosa dos dilemas cotidianos de quem perdeu família, amigos e referências. A fotografia fria e discreta reforça o contraste entre o universo comunitário acolhedor, mas opressivo, e o mundo externo, que oferece liberdade à custa da segurança emocional. O ritmo pausado e a edição cuidadosa permitem que os silêncios e os olhares dos personagens falem tanto quanto as palavras.
Reconhecimento e controvérsias
One of Us recebeu elogios da crítica especializada, alcançando 95% de aprovação no Rotten Tomatoes e nota 79 no Metacritic. Ganhou prêmios importantes, como o Critics’ Choice de Melhor Documentário, e participou de festivais de prestígio como o de Toronto e o de Filadélfia. Após o lançamento, Etty Ausch manifestou insatisfação com a decisão da Netflix de cortar cenas que tratavam de sua sexualidade, apontando para o controle ainda existente sobre sua narrativa mesmo fora da comunidade.
A difícil arte de recomeçar
A estrutura do documentário mostra o arco de ruptura, conflito interno, saída dolorosa e reconstrução incerta. Ari, Luzer e Etty tentam encontrar novos papéis sociais, seja como mãe solo, artista e sobrevivente, enquanto lidam com a memória viva da comunidade que deixaram para trás. A tensão entre o desejo de liberdade e o peso da culpa religiosa atravessa todo o filme, que questiona o valor real do pertencimento quando ele nega o direito à individualidade.
Reflexão social e cultural
One of Us amplia o debate sobre liberdade religiosa, abuso institucional e os direitos de quem escolhe abandonar uma cultura de origem fechada. O filme ecoa produções anteriores das mesmas diretoras, como Jesus Camp, e dialoga com séries de ficção como Nada Ortodoxa, ao revelar as violências sutis e explícitas impostas a quem busca autonomia pessoal. Também sugere a importância de redes de apoio para ex-integrantes de grupos opressivos, além de lançar luz sobre as brechas no sistema legal e de assistência social.
Conexões com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
O documentário se conecta com o ODS 3 ao destacar a importância da saúde mental e da resiliência emocional em situações de trauma. Relaciona-se com o ODS 5 ao retratar a luta de Etty por autonomia em um ambiente patriarcal e com o ODS 16 ao abordar a necessidade de acesso à justiça e de proteção a quem rompe com estruturas sociais coercitivas.
Essência
One of Us é um relato corajoso e comovente sobre o preço da autenticidade. Mais do que uma denúncia, é um estudo sobre o medo e a esperança de quem decide abandonar o conhecido para encontrar a si mesmo. Um filme que emociona e provoca, ao mostrar que ser livre exige força para perder quase tudo, menos a própria essência.
